quinta-feira, 26 de julho de 2012

ADMIRÁVEL GADO NOVO - ZÉ RAMALHO




Vocês que fazem parte dessa massa que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar e dar muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem à margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem já sente a ferrugem lhe comer



Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz


Lá fora faz um tempo confortável, a vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia, os homens a publicam no jornal
E correm através da madrugada a única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada e passam a contar o que sobrou



Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz


O povo foge da ignorância apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos, contemplam essa vida numa cela
Esperam nova possibilidade de verem esse mundo se acabar
A arca de noé, o dirigível, não voam nem se pode flutuar



Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz


A letra da música foi escrita na terceira pessoa, ou seja, é um narrador onisciente e objetivo quanto aos fatos relatados – não é influenciado pelas próprias emoções, até porque ele mesmo não faz parte da narração.
O título da música é notadamente uma referência ao livro “admirável mundo novo” do escritor Audous Huxley. Neste best-seller o escritor defende a ideia de que a sociedade do futuro suprimirá valores como o família, religião, privacidade, dúvida, amor, insatisfação, e todos os momentos da vida de seus cidadãos serão expressamente controlados pelo Estado (cultura, entretenimento, trabalho, relações sociais). Quando alguns desses valores passam a não fazer mais sentido para alguém, então é a hora desse alguém tomar a “soma” – um comprimido que anestesia e elimina qualquer sintoma de insatisfação (basicamente um droga).
Fazendo um paralelo entre o livro e a música vemos alguns elementos em comum. Ambos possuem sociedades estruturadas em uma ordem rígida e de certa maneira opressora – enquanto uma suprime valores como privacidade a outra trata seus cidadãos com “vida de gado”.
Podemos notar também a intenção e compromisso de ambos os Estados em manter a ordem instaurada. O do livro se utiliza de uma droga (a soma), enquanto o outro de promessas que nunca são cumpridas – “Vocês que fazem parte dessa massa que passa nos projetos do futuro”.
Entenda “projetos do futuro” como uma promessa de que “dias melhoress virão”. Se hoje você esta insatisfeito e infeliz com a vida e com o sistema deve manter a calma, pois o sistema esta trabalhando para no futuro inverter este quandro e tornar a sua vida melhor. Tenha paciência. Nessa história a opressão do sistema se mantem irretocável.
Agora, não se pode deixar de anotar também os traços do marxismo.
1. “É duro tanto ter que caminhar e dar muito mais do que receber” – fazendo referência à mais valia – teoria marxista – aonde o operário produz 1000 peças para o burguês, mas o salário disso é suficiente para comprar apenas 100, por exemplo. Marca da opressão.
2.”E ter que demonstrar sua coragem à margem do que possa parecer” – aqui é tratado a alienação do operário, inserido em um mundo onde os ideais de valores são os seus maiores bens (dignidade, honra, mérito, amor, paz, obediencia, compromisso) e no entanto, não sabe o prque de tais valores, sua função, interesses e resultados.
3. “E ver que toda essa engrenagem já sente a ferrugem lhe comer” – autoexplicativo né. prenuncia aqui o desmoronamento do sistema. Isso porque o oprimido vive cada vez mais desiludido quanto ao seu futuro. Pode ser feita uma relação com a profecia fracassada de Marx de que o capitalismo seria substituido pelo comunismo, e que até o momento não passa de um dos fracassos de Marx.
4.”Lá fora faz um tempo confortável, a vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia, os homens a publicam no jornal” – Há aqui uma crítica pesada ao sistema. O que necessariamente normal? por que é normal expropriar um trabalhador mas é crime roubar um banco para não morrer de fome? Aliás, utilizando uma frase muito conhecida: “eu não sei o que é pior: roubar um banco ou ter um”. Ou seja, nesse pequeno trecho há uma crítica aos valores burgueses
5 – “E correm através da madrugada a única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada e passam a contar o que sobrou” – essa eu ainda não sei e nem faço a mínima ideia do que pode querer dizer.
6. “O povo foge da ignorância apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos, contemplam essa vida numa cela” – agora passa ser uma reafirmação dos argumentos. O povo quer ser respeitado dentro do sistema fugindo de todas as malediscências que possam cair sobre ele, mas isso já é o suficiente para o destruir, enquanto ser consciente, pois fazer parte dessa sociedade já terminantemente degradável. Ainda assim ele espera uma vida melhor, mesmo que em uma cela, porque tudo que esta ao seu alcance é observar o sistema, a engrenagem – por isso a cela.
7.”Esperam nova possibilidade de verem esse mundo se acabar” – autoexplicativo.
8.”A arca de noé, o dirigível, não voam nem se pode flutuar” – essa eu também quero saber.
Comentário by Renato Lopes 

Um comentário:

  1. Excelente análise! Me ajudou muito no meu trabalho da escola.

    Na parte ”A arca de noé, o dirigível, não voam nem se pode flutuar”, eu entendi como se os trabalhadores fossem os animais terrestres dentro deles, que não podem adquirir a sua liberdade voando como os pássaros ou flutuando como os peixes num dilúvio, sendo dependentes da arca e do dirigível para não morrerem.

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