quinta-feira, 26 de julho de 2012

COTIDIANO - CHICO BUARQUE




Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã



Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café



Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão



Seis da tarde, como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão



Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
Me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor



Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode as seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã



"A genialidade do Chico Buarque é algo sensacional! As metáforas que ele usa nesta letra para descrever um dia-a-dia trivial de um brasileiro comum são a prova eloquente de que ele é ímpar. Só para citar algumas, destaco: as bocas “…de hortelã” (beijo com gosto de creme dental), “…de café” (beijo com gosto de café); “… de feijão” (beijo com gosto de feijão) além, é claro, das “bocas” de paixão e de pavor. Todas essas “bocas” magistralmente encadeadas em sequência no texto para representar o desenrolar autêntico da vida em comum de um casal comum. Bravo, bravíssimo!!!"
Comentário by Rubens Mota

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