quinta-feira, 26 de julho de 2012

MEU GURI - CHICO BUARQUE




Quando, seu moço
Nasceu meu rebento
Não era o momento
Dele rebentar…

Já foi nascendo
Com cara de fome
E eu não tinha nem nome
Prá lhe dar…

Como fui levando
Não sei lhe explicar…

Fui assim levando
Ele a me levar…

E na sua meninice
Ele um dia me disse
Que chegava lá…

Olha aí!
Olha aí!
Olha aí!
Aí o meu guri
Olha aí!
Olha aí!
É o meu guri
E ele chega…

Chega suado
E veloz do batente
E traz sempre um presente
Prá me encabular…

Tanta corrente de ouro
Seu moço
Que haja pescoço
Prá enfiar…

Me trouxe uma bolsa
Já com tudo dentro
Chave, caderneta
Terço e patuá…

Um lenço e uma penca
De documentos
Prá finalmente
Eu me identificar…

Olha aí!
Olha aí!
Aí o meu guri
Olha aí!
Olha aí!
É o meu guri
E ele chega…

Chega no morro
Com o carregamento
Pulseira, cimento
Relógio, pneu, gravador…

Rezo até ele chegar
Cá no alto
Essa onda de assaltos
Está um horror…

Eu consolo ele
Ele me consola…

Boto ele no colo
Prá ele me ninar..

De repente acordo
Olho pro lado
E o danado
Já foi trabalhar
Olha aí!
Olha aí!
Aí o meu guri
Olha aí!
Olha aí!
É o meu guri
E ele chega…

Chega estampado
Manchete, retrato
Com venda nos olhos
Legenda e as iniciais…

Eu não entendo essa gente
Seu moço
Fazendo alvoroço
Demais…

O guri no mato
Acho que tá rindo
Acho que tá lindo
De papo pro ar
Desde o começo
Eu não disse
Seu moço
Ele disse que chegava lá…

Olha aí!
Olha aí!
Olha aí!
Aí o meu guri
Olha aí!
Olha aí
É o meu guri…(3x)


"Pessoal, esta letra é de uma interpretação bem simples.
Não é uma mãe cega porque o rapaz é seu filho. É uma mãe ingênua pelas condições sociais precárias da vida.
‘Quando, seu moço
Nasceu meu rebento
Não era o momento
Dele rebentar…’
(Uma criança que como tantas outras, nasceu em condições precárias, provavelmente prematuro e não planejado.)
‘Já foi nascendo
Com cara de fome
E eu não tinha nem nome
Prá lhe dar…’
(Mais uma vez fica nítida a condição social da ‘família’, sem nenhuma estrutura e planejamento)
‘Como fui levando
Não sei lhe explicar…
Fui assim levando
Ele a me levar…’
(Como a criança ‘vingou’ nem ‘ela’ sabe devido as condições precárias. Mas o ‘guri’ desde cedo aprendeu a ‘se virar’ como pôde.)
‘E na sua meninice
Ele um dia me disse
Que chegava lá…
Olha aí!
Olha aí!
Olha aí!
Aí o meu guri
Olha aí!
Olha aí!
É o meu guri
E ele chega…’
(Toda criança apegada a mãe e família faz planos e sonhos, às vezes sem nem saber exatamente quais são esses…)
‘Chega suado
E veloz do batente
E traz sempre um presente
Prá me encabular…
Tanta corrente de ouro
Seu moço
Que haja pescoço
Prá enfiar…’
(A real inocência da mãe. Ela não ‘finge não ver’ ela REALMENTE não vê. A repetição das palavras ‘seu moço’ mostram também a simplicidade e ‘ignorância’ desta mãe)
‘Me trouxe uma bolsa
Já com tudo dentro
Chave, caderneta
Terço e patuá…
Um lenço e uma penca
De documentos
Prá finalmente
Eu me identificar…
Olha aí!’
(Neste trecho fica claro que a situação não é de alguém em situação de vida boa. Provavelmente um retirante, alguém que veio do sertão/roça e afins (regiões MUITO afastadas ou esquecidas pelo governo) sem acesso nem a cartórios para documentação ou abandonada… Um ‘povo esquecido’)
‘Olha aí!
Aí o meu guri
Olha aí!
Olha aí!
É o meu guri
E ele chega…
Chega no morro
Com o carregamento
Pulseira, cimento
Relógio, pneu, gravador…
Rezo até ele chegar
Cá no alto
Essa onda de assaltos
Está um horror…’
(A mãe realmente não sabia que o próprio assaltante é seu filho. Para ela ele é um trabalhador digno)
‘Eu consolo ele
Ele me consola…
Boto ele no colo
Prá ele me ninar..
De repente acordo
Olho pro lado
E o danado
Já foi trabalhar
Olha aí!’
(Uma mãe carente e inocente pelas situações da sua vida que merece tanta atenção quanto o ‘guri’e encontra isto somente no filho)
‘Olha aí!
Aí o meu guri
Olha aí!
Olha aí!
É o meu guri
E ele chega…
Chega estampado
Manchete, retrato
Com venda nos olhos
Legenda e as iniciais…
Eu não entendo essa gente
Seu moço
Fazendo alvoroço
Demais…’
(Também fica claro o analfabetismo da mãe. Impossibilitando que ela leia todas as informações sobre seu filho e não entendendo o ‘alvoroço’ feito pelas ‘manchetes’ e o porquê de somente ‘as iniciais’)
‘O guri no mato
Acho que tá rindo
Acho que tá lindo
De papo pro ar
Desde o começo
Eu não disse
Seu moço
Ele disse que chegava lá…’
(Ela não consegue nem perceber que o filho foi morto. Ela acha que ele está ‘se divertindo’ e que alcançou algo ‘maior’/ que faz sucesso/ que é bem sucedido)
‘Olha aí!
Olha aí!
Olha aí!
Aí o meu guri
Olha aí!
Olha aí
É o meu guri ‘
(espero que tenham gostado porque há muito venho estudando várias letras de chico e essa é uma das que já foi estudada)
BJUS!
Comentário by Vanessa

Nenhum comentário:

Postar um comentário