quinta-feira, 26 de julho de 2012

VAI PASSAR - CHICO BUARQUE



Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval
Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard
Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade até o dia clarear
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral… vai passar



"Vai Passar, música ironicamente alegre, feita anos após a ditadura militar. Feita em ritmo de samba enredo, que nos remete diretamente ao carnaval. Único momento de liberdade da época.
“Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar”.
Trecho que serve de introdução, inclusive explica porque “cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar. Era no chão que estavam as marcas dos acontecimentos, sangues e etc…
“Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais”.
Ainda falando do chão, dos grandes sambas que por ele passaram e do sangue derramado também, na revolta popular contra a ditadura.
“Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações”.
E esse tempo que o autor se refere é justamente o tempo de repressão, tempo em que o país esteja sob a ditadura militar, o que desbota ou mancha a memória das novas gerações.
“Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações”.
É que no geral, o povo não sabia das conspirações, das torturas, dos assassinatos e outras tenebrosas transações. Os militares alegavam que eles estando no poder trariam “ordem”
à nação, tanto é que até hoje muitos idosos ainda acham que a ditadura era boa.
“Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais”.
“Erravam cegos pelo continente”, era justamente os exilados, que opostos à ditadura eram obrigados a sair do país. “Levavam pedras feito penitentes”, eram os militantes, que tinham apenas pedras como armas contra o exército e “erguendo estranhas catedrais”, os protestante(evangélicos)erguendo suas igrejas com arquiteturas diferentes (estranhas, até então) da barroca usada pela igreja católica.
“E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval”
Uma alegria passageira que se estendia a todo o povo como uma epidemia; apenas nos quatro dias de carnaval, acabando na quarta-feira de cinzas e,então a tristeza voltava… por isso fugaz.
“Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard”.
Os barões famintos são os ricos que quanto mais tem, mais querem; os napoleões retintos são as altas patentes do exército e retintos não por serem carregados de cor, mas comparados a cavalos e bois, devido a grosseria que exerciam o poder. “Os pigmeus do boulevard” era mesmo o povo pobre e as crianças e sua crianças a margem do poder público, feitos de bobo.
“Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade até o dia clarear
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral… vai passar”.
“A evolução da liberdade” era o carnaval em si, único momento para extravasar… “estandarte do sanatório geral”, como símbolo do carnaval, o estandarte representa mesmo a loucura de um povo, que apesar das dificuldades ainda conseguem se divertir e pensar que é liberdade. No final o “vai passar” é ambíguo, primeiro fala da loucura (o carnaval) que vai passar na avenida e também lembra que apesar daquela liberdade parecer permanente ela é passageira.
Vai Passar! Parabéns Chico!!!"

Cristóvany Fróes
Comentário by Cristóvany Fróes 

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